Brasil tem conquistado marcos importantes em pesquisa e inovação, avaliam especialistas

O Brasil já criou um filtro de ozônio capaz de matar todo o novo coronavírus num ambiente — como uma UTI ou ambulância. Também é daqui a criação de um líquido capaz de invadir a camada de gordura do vírus inibindo a replicação do seu DNA e, consequentemente, sua fusão nas células do corpo. Essas e outras invenções desenvolvidas nas universidades e centros de pesquisa nacionais foram citadas por especialistas em ciência, tecnologia e inovação no webinar sobre a produção de tecnologia que pode melhorar a rotina do cidadão comum. O encontro virtual foi promovido pelo Interlegis, do Senado Federal, na tarde dessa quinta-feira (30).

De acordo com Tony Chierighini, diretor da incubadora Celta, uma das mais antigas do país, a crise da Covid-19 está forçando as empresas e os negócios a se reinventarem, a adquirirem outros tipos de conhecimento e a inovarem. O próximo passo, sem dúvida, é achar a vacina e os medicamentos para combater a pandemia.

Apesar de esse ser o assunto do momento, ele destacou que muito tem sido feito nas universidades e nas incubadoras em outras áreas da medicina e diversos setores econômicos. Citou projetos de nanotecnologia produzidos no ambiente acadêmico, como, por exemplo, o trabalho de uma pesquisadora de Brasília (DF), que detecta no sangue o surgimento de câncer sem que qualquer sintoma tenha aparecido  —  diagnóstico, em tese, mais precoce que qualquer outro levantado em exames de imagem.

O diretor da Celta também comemorou a endoprótese, um minúsculo dispositivo que vem revolucionando as cirurgias de aneurisma batizado de Apolo, da empresa Nano Endoluminal. Da mesma forma, Chierighini mostrou a nanotecnologia inserida na indústria têxtil para impedir, por exemplo, a desidratação dos atletas durante os treinos.

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A abertura do webinar foi feita pelo diretor executivo do Interlegis, Márcio Coimbra.

 

Caminho

Além da saúde estar sendo beneficiada por várias descobertas, o agronegócio, petróleo, gás e aeroespaço são setores que tiveram bastante desenvolvimento em universidades e, mais tarde, viram essas inovações se tornarem produtos vendidos e usados em massa. Na avaliação de Tony Chierighini, ainda há espaço para melhorar as pontes que ligam a academia, seus laboratórios e ICTs, e o setor produtivo, que pode aplicar dinheiro e investimento nessas pesquisas.

 —  É fazer a inovação sair dos laboratórios das universidades para chegar na nossa mesa, na nossa casa, na nossa vida.

Essa é a opinião também de Roberto Soboll, diretor do Instituto Eldorado, um dos maiores centros de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P,D&I). O pesquisador adicionou aos exemplos de Chierighini outras tecnologias nacionais que impactam a vida moderna. Na saúde, comentou avanços no diagnóstico visual em ressonâncias magnéticas e o desenvolvimento do Ecmo, um suporte de vida extracorpóreo também conhecido por oxigenação por membrana extracorpórea, que controla temporariamente a falência pulmonar e/ou cardíaca. No agronegócio, Soboll comentou a tecnologia que já detecta pragas na lavoura por meio de raios infravermelhos e faz a estimativa da safra por meio de computação visual e técnicas estatísticas.

 — As universidades atuam na pesquisa base, mas não têm musculatura para fazer a pesquisa pública virar pesquisa aplicada. São os Institutos de Ciência e Tecnologia que fornecem pessoas, infraestrutura e know-how para ligar os inventores da universidade aos novos negócios, ao mercado - explicou.

Mas ainda há gargalos. Segundo o pesquisador, um deles é de origem cultural: o medo de compartilhar dados. Ele defendeu a abertura dos ambientes de inovação para a troca de dados como essencial para a transformação digital:

 — Nosso nível de adoção, uso e repasse de tecnologia ainda é baixo. Muitas empresas ainda fecham seus dados para o trabalho de outras empresas, embora existam plataformas para gestão de dados.

Presidente da Academia Brasileira de Ciência, o físico Luiz Davidovich destacou que o apoio continuado em ciências e tecnologia dá fruto. Ele lembrou que o Brasil foi pioneiro em modernizar o sistema bancário virtual (Internet Banking). Também fez grandes descobertas na pesquisa sobre fabricação de energia a partir da biomassa e foi vanguarda nas descobertas sobre o vírus da Zika. Ele elogiou tanto o trabalho de empresas nacionais  — como Weg e Natura  — quanto à pesquisa apoiada por entidades ligadas ao governo  — caso do Programa Antártico Brasileiro (ProAntar).

 — Temos que avançar na cooperação das universidades nas empresas e na participação de cientistas dentro das empresas produzindo material de primeira linha do ponto de vista nacional e internacional.

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Pelo e-Cidadania, expectadores puderam fazer perguntas aos painelistas.

Soberania

O engenheiro e empreendedor Humberto Ribeiro apontou a necessidade de o país desenvolver produtos e conhecimento na cadeia produtiva de itens pelos quais os brasileiros ainda pagam caro para importar, como a tecnologia dos smartphones. Para ele, o domínio disso é a melhor defesa da soberania brasileira em ciência e tecnologia, uma vez que o conhecimento é o que afeta o custo do produto final.

 — É preciso tratar isso como um fator crítico de sucesso para a prosperidade da nossa nação. E isso passa por educação de qualidade, pautada pelo interesse coletivo.

O secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Júlio Semeghini, concordou que o país não pode depender totalmente de peças e componentes estratégicos importados. Parcerias de empresas nacionais, segundo ele, dão ao país autonomia em momentos e setores estratégicos. Exemplo disso é o consórcio de empresas nacionais aliadas a parceiros internacionais que deve, até o final de julho, produzir no Brasil mais da metade dos ventiladores necessários para UTIs  —  cerca de 16 mil  —  além de outros que serão colocados em ambulâncias.

 —  Estamos correndo para publicar toda a parte regulatória de encomenda tecnológica, para que a gente tenha soberania em algumas áreas. É importante ter um parque de produção no Brasil  — disse.

Semeghini informou que, apesar de o gasto do governo para sustentar a economia durante o período de isolamento ser alto, há otimismo quanto à continuidade das pesquisas, uma vez que o plano de trabalho do governo no pós-pandemia inclui, como ferramenta transversal de sua base, a ciência, a tecnologia e a informação.

A conectividade também será fundamental  — previu.

Votação remota

Dezenas de pessoas assistiram ao Webinar e 67 perguntas foram enviadas ao moderador, o presidente da Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação, Paulo Foina.

Ao abrir o evento, o diretor do Interlegis, Marcio Coimbra, comemorou o convênio do Sistema de Apoio ao Processo Legislativo Remoto (SAPL-R), com mais de 4,3 mil casas legislativas  — entre assembleias e câmaras  — que tornou possível a continuidade do trabalho legislativo por todo o país. Ele reconheceu que a  evolução da tecnologia também provocou mudanças importantes na atuação da administração pública e na forma de pensar suas políticas.

 — Novas ferramentas de gestão, mais modernas, têm sido essenciais para que os governos possam gerar qualidade de vida para os cidadãos e responder demandas constantes por serviços mais eficientes e eficazes, bem como por transparência e prestação de contas à população.

Ele destacou que é dever dos governantes garantir serviços de saúde, educação e segurança para atender a todos de maneira ampla e satisfatória. O tempo de espera nas filas do Sistema Único de Saúde e nas perícias do INSS são serviços que, de acordo com ele, ainda esbarram na burocracia.

 — Precisamos usar a tecnologia para que a administração pública otimize processos atenda a demanda da sociedade.